JEANEY

CALABRIA

Religião em Pauta

Zara Tempo!

09/08/2020

Foto: Orádia N.C Porciúncula

O menino usava um boné branco, aba virada para trás. Pretinho que só. O senhor ostentava uns dreads enfeitados por búzios nos cabelos crespos e branquinhos. Eram infância. Eram velhice.

Costumavam sentar à soleira da porta para olhar o sol se esconder e aparecer no horizonte. Conversavam sem parar. Dizia o mais velho:

- Que tolo é o dia! Pensa que será para sempre e se gasta tanto em ser apenas dia! A noite sempre chega... Sempre...

O menino emburrava. Gostava das manhãs. Preferia olhar para o mundo quando estava bem claro e imaginar que qualquer lugar bem longe era, na verdade, muito perto. Virava a aba do boné para frente e corria para dentro de casa.

O velho ficava por ali, sentado à soleira, apreciando o anoitecer da vida. Lembrava de tanta coisa. Da meninice, das pernas ágeis, da correria pra ser feliz, das primeiras letras traçadas num caderno de capa quadriculada. Recordava-se da ternura da mãe, do cheiro do feijão da avó, dos braços fortes de trabalho e suor do pai. Passava toda a madrugada olhando o ontem.

O menino, encolhido no sofá de juta e palha, olhava fixamente para o relógio preso à parede. Era um relógio antigo, sem ponteiros, mas que marcava com o som de tique-taque as batidas de seu coração e o tempo em milésimos de segundos, segundos, minutos, horas, noites e dias.

Assim que os primeiros raios de Sol anunciavam a manhã, ele saltava da cama improvisada e acomodava-se sorridente à soleira. Retomava, então, a conversa com o seu mais velho. Dizia o menino, arteiro, brincalhão:

- Que boba é a noite! Pensa que será para sempre e se gasta tanto em ser apenas noite!

O velho mexia nos dreads branquinhos, enfeitados por búzios e emburrava. Gostava das madrugadas. Preferia apertar os olhos para enxergar estrelas. No escuro, via e revivia tantas histórias. Compreendia melhor as pessoas. No escuro aprendera a não julgar nada ou ninguém. Apenas vivia. Ajeitava um búzio e entrava a passos lentos, recostando-se no sofá de palha e juta. O tique-taque do relógio era mais lento, como as batidas de seu próprio coração. Não percebia os segundos com tanta facilidade. Por vezes, notava que os minutos já haviam formado muitas horas e a areia da ampulheta quase se esgotava.

Passavam juntos, o menino e o ancião, o tempo da eternidade. Da soleira da porta, viam as estações mudarem, percebiam o vento açoitar as árvores e envergar bambuzais. Esperavam tempos propícios, tempos de benefícios. Semeavam, regavam, colhiam os frutos da vida... Sempre juntos, no movimento dos Astros que regem o Universo. Na cadência exata entre descobrir e saber. Entre Presente, Passado e Futuro.

A casa dos dois ficava a céu aberto, em meio a uma campina. Um viajante perdido pela estrada olhou para uma árvore enorme, tronco firme e de nervuras brancas. No alto, uma bandeira tremulava. De um lado da bandeira, o menino com o boné de aba virada para trás, arteiro e ágil. Do outro, o velho com dreads e búzios, lembranças e sabedoria.

O viajante sorriu. Seu coração saltava no peito, no compasso de Dó e Sol do tique-taque de um relógio interno. Encontrara, finalmente seu Norte e sua Bússola. Caminhou até a gameleira branca, prostrou-se no chão, bateu paó e saudou Tempo, Rei de sua Nação de Angola.

João sorriu junto a Matamba do outro lado do mundo. A Gomeia sobreviveria!

Zara Tempo!

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JEANEY CALABRIA

Jeaney é Professora de Língua Portuguesa e Literatura, Jornalista e autora dos romances Capa de Veludo (ditado por Exu Veludo) e Uma nova chance (intuído por Pai Benedito de Angola). Coautora do livro Candomblé em Família, Biografia do Babalorixá Jorge Jauanilê Caribé. Umbandista e pesquisadora das religiões de matriz africana.

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