JEANEY CALABRIA

@jeaney.calabria

Espiritualidade

Candomblé – onde a família é o Sagrado.

Omi wá (*Omí uá*)

17/01/2021

Atabaques arrumados com laços coloridos, mariô na porta, quartinha d’água no portão de entrada. Sorrisos largos nos rostos cansados. Crianças correndo de um lado para o outro. Eu estava no barracão fazia poucos meses, Era abian e estava me preparando para me iniciar no culto a Xangô. Não sabia nada e tentava aprender tudo o que era possível. Limpava o chão, lavava banheiros, cuidava das plantas, fazia compras no mercadinho próximo. Acompanhava de cabeça baixa os rituais para os quais ainda não estava preparado para olhar diretamente.

Quando, às sextas-feiras, eu concluía a revisão dos processos da semana, enquanto os outros advogados do grupo saíam para relaxar num barzinho qualquer, eu corria para casa, beijava minha esposa e minha filha de quatro anos, apanhava a mala e partia para o meu Ilê. Era o momento mais esperado da semana e faltava pouco para minha iniciação. Já estava com tudo quase pronto: enxoval, a roupa do Orixá, as ferramentas que meu Pai Xangô usaria quando eu estivesse em transe. As compras de alimentos para alimentar os que iriam trabalhar noite e dia durante minha feitura e os produtos de limpeza necessários para manter o barracão limpos já haviam sido devidamente acordadas após uma reunião com meu Babalorixá e meus irmãos de barco: quem tinha melhor condição financeira colaboraria com maior quantia; os que tinham menos, com a menor parte e aqueles que temporariamente nada poderiam dar, nada dariam. Divisão justa, social e democrática.

[Suspiro longo de alívio]

Os meses se passaram e chegou o dia de me desligar do mundo material. Passaria recolhido 21 dias e mais umas semanas para equilibrar meu Orí. Minha esposa chorou um pouco. Disse que sentiria saudades. Peguei minha filha no colo e ela me fez um pedido:

- Deixa eu ir com você, papai?

- Você vai no dia da festa, filha.

- Quero ir agora.

Beijei minha pequena, minha esposa e saí. Entrei no barracão por volta das dez da manhã e mal tive tempo de respirar. Os animais que seriam sacralizados já recebiam os cuidados necessários. Fui recebido por meu Babalorixá:

- Vá tomar seu banho de ervas, meu filho.

Tomei o banho gelado e vesti minhas roupas brancas. Coloquei no pescoço meu fio de contas e fui pedir a bênção a todos. Passei pelos preceitos iniciais em três dias consecutivos. Em cada momento vivido, uma descoberta e emoção diferente, até o dia de meu renascimento. Éramos cinco pessoas para a iniciação e todos estávamos ansiosos. Notei um movimento estranho entre os meus mais velhos. Por um instante, pensei ter ouvido a voz de minha esposa. Ouvi a Mãe Pequena, a Iyá Kekerê da casa, pedir que arrumassem outra esteira no roncó. Meu irmão que seria iniciado em Oxóssi sussurrou:

- Alguma coisa me diz que falta alguém de Yemanjá neste barco. Tem muita cabeça quente junta: Xangô, Ogum, Oxóssi e mais duas Iansãs.

Nós rimos, concordando.

Ficamos algumas horas esperando até que, um a um, começamos a renascer. Morri para quem eu era de forma definitiva. Nasceu comigo a certeza de meu Rei Xangô. Na esteira de palha, no útero do Candomblé, o roncó, despertei de um sono profundo quando tocaram a sola de meus pés. Eu e meus irmãos batemos compassadamente o paó. Havia o som nítido de mais uma pessoa fazendo o mesmo. Palmas mais singelas, mais fraquinhas... Os pratos e canecas de ágata foram colocados a nossa frente com o primeiro alimento do dia. Quando nossa Mãe Criadeira saiu, olhamos para a última esteira. Chorei. Chorei até não poder mais. Minha filha estava naquela esteira forrada por alvo lençol. Mesmo no escuro, eu a reconhecia. Ela também chorou de emoção. Muito. Meus irmãos choraram.

- Minha mamãe das águas me chamou, papai.

Yemanjá se fez presente em minha filha. Xangô se fez presente em mim. Oxóssi, Ogum e Iansã igualmente em nossos irmãos. Os Orixás se manifestaram emocionados.

Omi wá!

A água se fez presente!

Divulgação/Terreiro de Oxumaré (BA)

JEANEY CALABRIA

Jeaney é Professora de Língua Portuguesa e Literatura, Jornalista e autora dos romances Capa de Veludo (ditado por Exu Veludo) e Uma nova chance (intuído por Pai Benedito de Angola). Coautora do livro Candomblé em Família, Biografia do Babalorixá Jorge Jauanilê Caribé. Umbandista e pesquisadora das religiões de matriz africana.

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