Memória, Cotidiano e Literatura

Lado a Lado - compartilhando dores e afeto

27/10/2019 - 19h04

Maria desceu do ônibus com olhos marejados, peito apertado, rumo ao
encontro com seu filho depois de anos, sem saber bem como iria encontrá-lo, Joana ficou no ônibus, fez recomendações a ela “mãe desce aqui, atravessa a rua e espera ele chegar, depois me liga, e na volta pede ele para te levar no ponto”, as recomendações eram porque Maria não ia a Cidade há muito tempo, ficava sempre no interior vivendo sua vida com o companheiro e os outros filhos.

Maria acenou com a cabeça, em sinal de que tinha entendido tudo o que Joana recomendara e foi, Joana ficou olhando através da janela do ônibus até o mesmo fazer a curva, não podia descer com Maria, pois tinha a inscrição de um curso que findava naquele dia. Joana e Maria já estavam lutando lado a lado há algum tempo, e tudo ficou mais duro quando Maria chegou em casa despedaçada com a notícia da doença do filho que há muito tempo não convivia com ela, pois fez a opção de viver no mundo, nas ruas, contraindo assim o vírus HIV/ Aids.

Para Maria era como se a vida tivesse o punido por algo e com isso ela se culpava. Ela se perguntava onde falhei? E agora? Maria lembrou dos tempos em que o filho era pequeno e a acompanhava em todos os lugares, perguntou: Joana lembra dele pequeno? Era muito guloso. E Joana respondeu, “Claro que lembro mamãe, quando vovó fazia a comida ele ficava no canto da parede gritando “vó camida arroz e feijão?” e minha avó dizia “espera menino, esta quase pronto” crescemos assim.”
Joana relembrando os tempos de criança, se perguntou, onde foi que o
perdemos? E não teve resposta, ficou ali inerte pensando na dor de Maria e
também do irmão. Joana pensou no quanto queria ter uma vida mais leve, com muitos sonhos realizados, mas não, sempre teve uma vida dura ao lado da mãe e dos irmãos. Durante o dia, Joana ficava atenta a qualquer sinal do celular, pois podia ser sua mãe ao telefone dando noticias de como foi o dia ao lado do filho. E la pelo fim da tarde o telefone tocou, Joana correu pra atender, “alo, alô, Mãe? Do 
outro lado “Joana?, encontrei ele, está morando num quartinho, esta precisando de fogão e alimentos, os amigos dele tem ajudado muito, já estou no ponto do ônibus, chegando em casa te explico”, quando Joana desligou o telefone passou um filme em sua cabeça, será como ele está? Meu Deus! Imagino como minha mãe não está cansada, triste, com fome, e seguiu seu destino até em casa a espera de Maria, para saber maiores detalhes.
Maria e Joana estão lutando lado a lado todos os dias, passam a semana juntas, Maria ajuda a Joana a criar sua filha. E nos finais de semana Maria vai pra casa, é quando Joana e a filha sentem saudades dela em tudo, fica um silêncio, sentimos falta até do cigarro que ela fuma às cinco da manhã na janela da cozinha e quando acordo sinto o cheiro na sala, os barulhos das panelas, logo cedo. É quando Joana percebe a solidão do fim de semana e quando Maria chega na segunda, conta os “causos” dela, riem juntas e depois Joana segue para o trabalho, na certeza de que na volta ela estará lá esperando por ela, com sua cria bem cuidada. Joana sente uma tranquilidade imensa.

A tranquilidade que precisa para seguir trabalhando e cuidando da filha. Muitas vezes Joana fica temerosa de perdê-la. Joana gostaria de ter tempo para curtir a vida, passear com a filha, mas nem sempre possível. Por isso ela fica tão pensativa com a situação da mãe e do irmão, pois este tem sido o destino de muitas mulheres negras, lutar para sobreviver, sem ter a chance de passear, de gozar a vida. Joana diz “Maria você é minha eterna fonte de inspiração!” Olha para a filha e diz “Você representa tudo que de melhor eu fui capaz de nutrir, gerar e pôr neste mundo” e com os olhos marejados pega um papel e começa a rabiscar: nada tenho nessa vida, além de sonhos, vocês duas e fé. As pessoas que encontramos na vida, estas nem sempre posso contar, todas fazem a parada que tem que fazer e partem. Umas deixam marcas, outras não, mas tudo que sou vem do ventre, do sangue e da força desta matriarca nagô. O que tenho doei para gerar minha cria, meu fruto nesta terra, todo meu sangue, minha força e meu amor. 

Quando Maria chegou estava cansada, muito cansada, há muito não andava de condução para tão longe, a tristeza nos olhos, voz embargada, disse “Joana tinha que ver a situação dele, descobriu a doença há pouco tempo, pegou de uma namorada, está triste achando que a vida é muito injusta, mas esta tratando, mora perto de um hospital, e pediu sua ajuda. Ele dorme no chão, tem que levar roupa de cama, fogão e comida”. Joana respirou fundo e disse: "mãe o que puder irei fazer, ele é meu irmão, quando vai voltar lá?"  Maria disse: "na semana que vem, combinei com ele".
E assim passaram aquela semana Maria e Joana fazendo planos de rever o filho e o irmão, ajudar no que fosse possível, embora as duas quando iam dormir pensavam cada uma a seu modo, em como ele estaria dormindo, no porque tudo aquilo estava acontecendo e ao amanhecer nenhuma falava de seus pensamentos para a outra, pois temiam causar tristeza, o que ambas não sabiam é que mesmo em silêncio ambas compartilhavam dores e afeto.

Coluna

Memória, Cotidiano e Literatura

ELAINE MARCELINA

Escritora, professora, historiadora, mestre em história, roteirista, colunista e produtora do Pauta Rio. Elaine também é militante do Movimento de Mulheres Negras, do Movimento Negro Unificado e Ministro a Oficina de Escrita Criativa: Meu Primeiro Livro.

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