Dia da mulher negra, latino americana e caribenha

13/07/2019 - 14h09

Nessa semana, homenageamos, no dia 25, a mulher negra, latino americana e caribenha. Iremos destacar duas mulheres negras brasileiras que dedicaram e dedicam suas vidas contra o racismo, como Vanda Ferreira e Zezé Motta. Todas elas a seu modo nos ensinaram e nos ensinam a resistir, lutar e jamais desistir. Um salve a todas as Mulheres negras que vieram antes de nós,  as que estão no front neste momento e as futuras Terezas, Dandaras, Luiza, Acotirenes.

Para começar, vamos falar de Vanda Ferreira

Do Livro Mulheres Incríveis 3ª ed.:

Meu nome é Vanda Maria de Souza Ferreira, tenho 64 anos. Eu nasci em Niterói, no dia 20 de novembro de 1947. Minha mãe é de Niterói também. Na verdade, a população negra de Niterói é oriunda dos escravizos de Campos, de Vassouras, de Minas. Então, Niterói não tem uma população escrava, tem uma diáspora negra oriunda do interior do Estado, até porque Niterói era capital do antigo Estado do Rio de Janeiro, era a cidade onde as moças e rapazes das fazendas vinham para completar os seus cursos, porque as melhores escolas estavam na Capital. E essa negrada vem em busca de emprego melhor, fugitivo ainda no período da escravidão e, após a proclamação da República, à procura de algum emprego melhor. Niterói, ela é indígena. Eu, criança, convivi com tribo indígena. Eu nasci no local perto do Morro do Bumba, que não era Morro do Bumba. Aquilo ali era resquício de terras com árvores frutíferas, ingá, sapoti, manga, jabuticaba, jamelão e uma gruta onde tinha alguns índios, que se chamavam Bugas do Cubango. E não sei dizer a você se a palavra “Cubango” é Bantu ou se é uma palavra indígena, mas Niterói é muito indígena. Aqueles morros ali, Morro do Abacaxi, na orla da Alameda São Boa Ventura... Eu, quando criança, ouvia muito dizer que encontravam roupas de índios, objetos indígenas. Então, a negrada de Niterói é realmente oriunda das senzalas. Meu pai nasceu naquele morro ao lado da Ponte Rio-Niterói, onde tem o pedágio, do lado direito tem um morro que tem uma igrejinha, aquele morro chama-se Morro da Conceição. Minha avó foi violentada, e ela não dizia quem era o seu pai, logo depois ela arruma um companheiro, tem uma filha, mas não resiste outra família pega a minha tia e vai para o Bairro da Engenhoca. Apesar de o meu pai ter seis aninhos, ele tinha clareza de que ele tinha uma irmã. Era uma menina que tinha nascido, só não sabia se tinha sido registrada ou não e ele cresce com essa preocupação de encontrar essa irmã. Outra tia, que mora no mesmo morro, pega o meu pai pra criar. Aí, papai fica lá e ela morre também. Fica o papai e a prima. Eles foram considerados irmãos e o padrasto era alcoólatra. Naquela época, já tinha, no morro, as tias que ficavam tomando conta das crianças, para que as outras mulheres viessem trabalhar nas casas de família e já uma orquestração de botar para trabalhar na rua. Havia uma senhora que ela fazia mingau e amendoim para essas crianças venderem na rua e tinha que trazer o dinheiro. Isso eu fico elucubrando: quem não trazia o dinheiro, fazia o que para trazer o dinheiro? Porque tinha que trazer. E, naquela época, pelo menos em Niterói, aqui no Rio me parece que era preto e branco, a Polícia, o camburão da Polícia era preto e vermelho, era chamado de “flamenguinho”. E ela sempre ameaçava que, quem chegasse sem dinheiro, ela ia chamar o “flamenguinho” e colocar no SAM. O SAM é, hoje, o prédio da FAETEC, em Quintino, que se chamava Serviço de Assistência ao Menor. Hoje, eu faço uma avaliação: por pior que ele pudesse ter sido naquele momento, onde só abrigava crianças negras, que as mães precisavam trabalhar e não tinham com quem deixar, dá de mil a zero em qualquer instituição de menor. Hoje, nós temos algumas pessoas importantes, no cenário da política, que vieram de lá do SAM. E por eles não saberem tratar do cabelo nosso, todo mundo chegava e raspava a cabeça. Então, ficava menino e menina como se fosse uma coisa só. E era um regime muito severo, não resta a menor dúvida, mas aprendia-se a ler e a escrever, a tocar música, e era a extensão geográfica que é hoje. Não, não, não fui pro SAM, mas estou dizendo que esta senhora ameaçava as crianças que, se não trouxessem o dinheirinho, levaria pro SAM. E, no imaginário coletivo daquele momento, o SAM era o lugar de criança sem donos, pretos, pobres, piolhentos.

Então, a própria criança tinha muito medo, porque a mãe que colocava ali só podia ver as crianças uma vez por mês. Mas, por pior que tivesse sido, como eu falei, fico elucubrando: deu um nível de instrução, uma qualificação profissional, e a área geográfica é essa toda que tem hoje a FAETEC. Você vê que instituição fechada que foi criada. Depois, anos mais tarde, ali passa a ser FUNABEM, mas a primeira instituição fechada após a Abolição, que o Estado cria para pegar os filhos dos escravos, é o SAM. E um belo dia, o meu pai não conseguiu vender os amendoins. Ele tava subindo o morro, viu uma viatura do “flamenguinho” e ele imaginou: “Pro SAM, eu não quero ir”. Ele foge, entra em um barco de pescadores, vem para a Praça XV, fica sendo um menino de rua na Praça XV. Depois, vai pra Lapa. Foi, por algum tempo, menino de recado de Madame Satan, conviveu com toda essa malandragem e, depois, ele se estabelece no Saara. [...]

  

Leia essa e outras histórias no livro Mulheres Incríveis 3ª ed. – Editora Nandyala, autora: Elaine Marcelina

Zezé Motta

Do Livro Mulheres Incríveis 3ª ed.:

Em 1975, eu estava me formando em Artes Dramáticas. No final do ano, fiz um teste e passei para Roda Viva, com uma produção do Teatro Oficina (José Celso Martinez Correa), e essa peça fortaleceu meu interesse pela política, confirmou que realmente era contra o sistema vigente. O período de ditadura me fortaleceu, pois passei no teste e a peça foi proibida, foi perseguida. Nós, atores, fomos espancados e expulsos de Porto Alegre por um grupo chamado CCC. Primeiro, a peça foi proibida no Rio de Janeiro. Nós fomos pra rua com classe artística e com o apoio do povo, conseguimos que a censura voltasse atrás, depois fomos para São Paulo e fomos espancados por esse grupo de extrema direita, o CCC. Depois fomos para Porto Alegre e este grupo pressionou o Governo. Ficamos só um dia com a peça em cartaz. No dia seguinte, a proibição se estendeu a todo território nacional. Quando se chegou a este ponto, já havia acontecido a morte do Edson Luis. Foi um período que marcou muito a minha vida. Estudei no Colégio Santo dos Anjos na Cruzada São Sebastião, que havia sido fundado por Dom Helder Câmara, um padre que estava sendo exilado e proibido pela censura de falar e, enfim, partidariamente, ele não podia ser pronunciar. Isto no final do ginásio. A seguir, entrei para o Tablado. Minha história começou em 1968. A morte do Edson e as perseguições a Dom Helder ocorreram no fim da década de 1960 e início de 1970. A partir daí, realmente, me tornei uma pessoa antenada politicamente, tornei-me de esquerda, porque vi que alguma coisa estava acontecendo de errado. Minha cabeça ficou muito inquieta com isso tudo. A sensação de impotência era infinita. Tive a sorte de ter estudado nesse colégio, fundado por Dom Helder. Lá, nós éramos muito politizados, havia um sentimento geral com a questão de o Dom Helder estar sendo perseguido e proibido. Ele não podia nem rezar missa como aconteceu com Boff, o Frei Boff. Passei muitos anos com esta inquietação, querendo fazer muita coisa, até que, em 1975, tinha muita vontade de realizar alguma coisa, sabia que deveria fazer algo, não sabia por onde começar, não tinha um discurso articulado, não tinha também um acesso à imprensa. Em decorrência da aprovação no teste, fui convidada para o filme, que estreou em 1976. Então, com o sucesso do filme, porque foi um filme que estourou no mundo, comecei a dar duas a três entrevistas por dia. A questão da mulher e do negro, inevitavelmente, entrava nessas entrevistas, nesses depoimentos. Afinal de contas, era uma mulher negra conquistando um espaço de mídia. Ganhei todos os prêmios. Todos os prêmios que existem para cinema eu ganhei com Chica da Silva. Foram muitos: “Air France”, “Coruja de Ouro”,“Candango de Ouro”. Veio também “Personalidade do Ano”, “Mulher Personalidade”, “Dia Internacional da Mulher”, até a “Revista Playboy”. Nunca posei pra Playboy, mas apareci nua no filme e a Playboy me deu um prêmio. Isso me jogou na mídia de maneira assustadora. Percebi que, se quisesse fazer alguma coisa, se quisesse virar esse jogo, ter alguma participação, precisava me informar, precisava ter um discurso articulado, precisava afinar, estar preparada para isso.

Exatamente em 1975 e 1976, percebi que tinha que me estruturar para esse espaço, para ocupá-lo com dignidade e não falando bobagens nem fazendo bobagens. Foi aí que tive a sorte de abrir os jornais um dia e encontrar um anúncio de um curso sobre cultura negra no Parque Laje, ministrado por nada mais nada menos que Lélia Gonzáles, saudosa Lélia Gonzáles, grande antropóloga, professora da PUC. Tive o privilégio de atender a esse anúncio. Lélia foi muito importante na minha vida. Na aula inaugural, ela disse o seguinte: “Eu sei por que é que vocês estão aqui. Eu quero deixar uma coisa bem clara: não temos mais tempo para lamúrias. Temos que arregaçar as mangas e virar este jogo”. Este recado foi definitivo na minha vida, porque eu estava mesmo querendo contribuir de alguma maneira. Coloquei isto na minha cabeça. Fiquei grávida deste pensamento até 1976 e ele nunca saiu. Fiz filmes com Cacá Diegues. Impregnada pelas informações passadas por Lélia, ingressei na política. Ela me levou para o Movimento Negro Unificado. Quando o Movimento foi inaugurado em 1971, participei assim, estando presente na escadaria, vibrando porque alguma coisa estava sendo feita pelos negros, mas só ingressei efetivamente no Movimento Negro em 1976, levada pelas mãos de Lélia Gonzáles. A Lélia me abriu os olhos para todas as questões políticas, da mulher, da sociedade, as leis desfavoráveis, deixando muito claro o que era ser mulher negra neste país. Fez-me perceber, também, que só quando você conquista um espaço é que se dá conta do quanto é difícil ser uma mulher negra no Brasil. Quando você não está competindo, você não está incomodando. Então, foi um período muito importante na minha vida, até quanto eu gerava este filho de 1975 e 1984. [...]

 

Leia essa e outras histórias no livro Mulheres Incríveis 3ª ed. – Editora Nandyala, autora: Elaine Marcelina.

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Memória, Cotidiano e Literatura

ELAINE MARCELINA

Escritora, pesquisadora e historiadora

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