LIA VIEIRA

Encruzilhada de Notícias

Muitos temas negros e um só troféu. Ganhamos todos?

29/02/2020

Rio de Janeiro, tempo de Carnaval, que com seu inegável apelo festivo oferece uma gama diversa de lazer, gastronomia, esportes, aventuras e história.

Sem dúvida, o paraíso que o turista vem buscar – é o vale tudo!

A agitação e o otimismo pelas ruas recebem 1 milhão e 900 mil turistas, e um faturamento de aproximadamente 8 bilhões.

Blocos e mais blocos se movimentam pelos diversos pontos da Cidade, irreverências nas fantasias, nos protestos, no saudosismo das canções.

A ânsia de viver experiências únicas.

O desfile da Marques de Sapucaí, certamente é o ponto alto da festa, com uma engenharia que somente entende quem produz: ensaios, barracões, comissão julgadora, grandes desfiles, apuração – um verdadeiro enigma da Esfinge - Decifra-me ou te devoro. Humildemente, abro mão desta compreensão.

Temas negros tem sido uma marca identitária, e 2020 trouxe enredos de grandeza e relevância com pesquisas fundamentais para o letramento literário, o resgate da História, a afirmação dos saberes.

Descortinaram-se diante de nossos olhos "sonhos sonhados” como o do líder encantado Joãozinho da Goméia, na escola de samba Grande Rio, onde perfilaram-se os mais importantes representantes da causa negra.

 

Benjamin de Oliveira nos foi desvelado num enredo e harmonia impecáveis do Salgueiro, e a esplendorosa Elza Soares, recebe em vida homenagem mais que merecida da Mocidade Independente de Padre Miguel, diva das divas.

 

A gloriosa Mangueira, gabarita um desfile de arrepiar com um Cristo de mil faces , questionamentos e bandeiras sociais. Instigante. Já a Beija Flor de Nilópolis, arriscou-se nas encruzilhadas do tempo, nos caminhos e descaminhos e trouxe em sua comissão de frente, Exu, Laroyê Ina Mojubá.

 

Aplaudido de pé, o enredo A voz da Liberdade, personificado em Luiz Gama, pelo ator Deo Garcez, que só repetiu na Avenida o que ele tem feito nos palcos de teatro há cinco anos, a Acadêmicos do Cubando, deu um show de Alegria. Contagiante. Niterói, também deu seu grito de alforria ao trazer para o desfile da cidade, Mulheres Negras do Cais – com as escritoras negras: Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz, Elisa Lucinda, Lia Vieira, Debora Moreno, que exaltaram Maria Firmina dos Reis, do alto de um belíssimo carro alegórico e com a fantasia que  reproduzia o fardão da Academia Brasileira de Letras, e  entoavam o refrão:

“ É que eu sou da pele preta

Fale o que quiser

Sou forca, sou raça, sou mulher.”

Na Marques de Sapucaí, Niterói brilhou e levou o Campeonato. A Unidos do Viradouro, impecável em todos os quesitos, com a Alma Lavada, nos ensinou sobre as Ganhadeiras de Itapuã, Salvador, Bahia, mulheres negras que lavavam roupas para ganhar sua alforria. O empoderamento das mulheres e a musicalidade,  pesquisa da professora Harue Tanaka, da Universidade Federal da Paraíba, ganhou vida com os carnavalescos Marcus Ferreira, Tarcísio Zanon e equipe. A Escola defendeu com garra o conhecimento espraiado do Abaeté e fluiu da pesquisa acadêmica  para a vida. Ora ye ye o Oxum.

Neste rápido balanço do Carnaval de 2020, exaltamos as imagens belíssimas gravadas nos nossos olhos, canções ricas em nossos corações, e na rede da memória afetiva  ancestral -  o encantamento em louvação.

Que fiquem sustentadas as milhões de vozes que  cruzaram a  Avenida :

 

“Toda mulher brasileira em sua essência é ganhadeira “

LIA VIEIRA

Carioca e graduada em Economia, Turismo e Letras, Lia cursou doutorado em Educação na Universidade de La Habana (Cuba)/Universidade Estácio de Sá (RJ). É escritora, pesquisadora, dirigente da Associação de Pesquisa da Cultura Afro-brasileira e militante do Movimento Negro e do Movimento de Mulheres

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