LIA VIEIRA

Encruzilhada de Notícias

A mulher é o negro

do mundo

07/03/2020

“A  mulher é o negro do mundo. A mulher é a escrava dos escravos. Se ela tenta ser livre, tu dizes que ela não te ama. Se ela pensa, tu dizes que ela quer ser homem... “

Ao fazer destas palavras - canção, o herói vingador, John Lennon, nos ajuda a interpretar sonhos que não são seus, mas que imprimem  no tempo  o discurso que o machismo é uma esquizofrenia. Ele conheceu no convívio com sua mulher Yoko Ono um tempo de intolerância e racismo, não só percebeu, mas ousou e confrontou  o mundo contemporâneo:

- E preciso respeitar a mulher!

O feminismo é um trânsito peregrino e um dos mais instigantes caminhos de transformação humana, que o digam todas as mulheres insurgentes, que lavam, ensaboam, cantam, quebram cocos, partejam, falam nas tribunas, dançam, adjudicam, enfrentam feras com seus microfones, leem, escrevem, sobrevivem.

É na garimpagem das mensagens não verbais que recebo das minhas mais velhas, que reconheço: a nossa luta é universal.

  

Em pesquisa deste mês, a Revista Exame, elenca os países piores para as mulheres. Nos 166 países pesquisados, aspectos relacionados  vão desde atenção à saúde, violência doméstica, acesso a contas bancárias, capacitação política, um dado muito frequente atualmente, quando se fala em equidade de direitos, entre outros. Numa lista de dez avaliados, consideremos, pelo  olhar eurocentrado, Niger, Somália e Mali aparecem no topo da lista.

No Brasil, o índice de feminícidio,  e os dados  nacionais demonstram que o aumento de morte de mulheres negras aumentou em 17%. Gritam, Marias, Mahins,  Marielles,  Cláudias, Larissa Rodrigues, Luana Barbosa, incontáveis estrelas covardemente apagadas.

Tais indicadores, me remetem ao texto inicial: Teria Sir John Lennon ladeado por Yoko Ono, tido a visão, que há uma morte que explode em silêncio? Que  Meghan Markle e sua barriga-fêmea real, sofreria  também o descaso e o racismo, testemunhado pelo mundo, na peleja entre a emancipação da mulher jovem e a autoridade enraizada no poder, na arrogância do patriarcado, supérfluo e caseiro  da nobre anciã? Tempo rei!

O que reflito, em mais um  oito de março, com tantas bandeiras de luta desfraldadas,  é que um cenário de mais desafios se agiganta, e que esta complexidade só pode ser vencida de forma coletiva :  unidade nos sonhos, projetos, histórias, resistências, memórias, solidariedade.

Que não tenhamos medo de sermos Mulheres, que na dança espiralada entre luz e sombra, das profundezas da alma ecoem as mudanças, para que sejamos vidas que transformam feridas em potencial criador. Assim seja! Assim é!

A mulher é o negro do mundo. A mulher é a escrava dos escravos. Se ela tenta ser livre, tu dizes que ela não te ama. Se ela pensa, tu dizes que ela quer ser homem.

Da música "Woman Is the Nigger of the World", escrita por John Lennon e Yoko Ono, álbum de 1972 "Some Time in New York City".

LIA VIEIRA

Carioca e graduada em Economia, Turismo e Letras, Lia cursou doutorado em Educação na Universidade de La Habana (Cuba)/Universidade Estácio de Sá (RJ). É escritora, pesquisadora, dirigente da Associação de Pesquisa da Cultura Afro-brasileira e militante do Movimento Negro e do Movimento de Mulheres

Siga a Lia Vieira nas redes sociais:

COMENTÁRIOS

PAUTA RIO
Copyright © 2020 
Todos os direitos reservados.