Memória, Cotidiano e Literatura

A relíquia da favela

24/11/2019 - 22h04

Aos quase 70 anos, ele ainda mora na favela. Ele, que por um motivo torpe, virou celebridade. Ele, que no auge de sua dor, ouviu tanta coisa dolorosa. Mas que agora ouve também coisas boas. Ele, que neste momento da vida, acorda cedo e vai pra rua, porque trabalhou durante 41 anos ininterruptos, sem nunca ter tempo pra vadiar, e não consegue ficar em casa parado. Ele,
que nunca, nem em sonho, se envolvera com qualquer situação errada ou criminosa, foi alvo de tiro em uma famosa incursão da polícia na favela, aquele local que para ele e para os seus é somente seu local de moradia. Por isso mesmo, sim, por morar na favela, foi que levou uma "bala perdida", dessas que sempre acham alguém na frente, e desta vez este alguém foi ele.


Correria e gritos. Susto, desespero e sangue pra todo lado. A bala varou sua coxa e quase pega uma veia principal. O médico disse que foi por pouco. Se tivesse acontecido, hoje ele seria finado. Mas pôde voltar pra casa depois de muitos dias no hospital. Por conta dessa fatalidade passou a ser chamado de "Relíquia da favela", e ainda hoje, após passado um bom tempo do ocorrido, ele ainda recebe visitas. Gente que vem conhecer e conversar. Mas recebe também os curiosos e até algum jornalista, que perguntam como foi o ocorrido daquela noite que todos querem esquecer. Ele diz que dói lembrar. Mas a cada dia a dor dele vai se transformando em dor crônica por ver o cenário da cidade na situação em que está, com tudo o que vem ocorrendo no Rio de Janeiro, nas favelas, nos bairros. Sem distinção. O sofrimento é de todos. Dos novatos e dos antigos que sempre viveram ali. Ele sempre foi tão bem-quisto na favela que hoje leva até o
apelido que ganhou da comunidade. Ele é um sobrevivente. Ele tornou-se a Relíquia da Favela.


Mas já não vai mais sentar na mureta do quintal, nas noites de lua clara, para tocar seu violão e cantar os sambas que a mulher e os filhos pediam, e ficavam ouvindo e pedindo bis. Ele hoje é a relíquia da favela porque voltou pra casa, e sobreviveu para contar mais uma história de bala
perdida.

Coluna

Memória, Cotidiano e Literatura

ELAINE MARCELINA

Escritora, professora, historiadora, mestre em história, roteirista, colunista e produtora do Pauta Rio. Elaine também é militante do Movimento de Mulheres Negras, do Movimento Negro Unificado e Ministro a Oficina de Escrita Criativa: Meu Primeiro Livro.

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