ELAINE MARCELINA

Memória, Cotidiano e Literatura

Carta à

Ya Beata

20/06/2019

Agô!

Mãe Beata, hoje sinto um mar derramar de meus olhos, quando penso que a senhora foi para o Orun.

É inevitável, Yá...

Sei que nasceu na encruzilhada, a caminho das águas, e que durante sua estada aqui no Aiye, soube trilhar este caminho com maestria, tanto que conduziu a todos nós por esses caminhos, deixando para todos nós uma grande responsabilidade. 

Como levar seu legado adiante? Como não fraquejar? Como ouvir seus conselhos?

Sei que soube passar seu cajado, seu adjá.  O Ilê Omi Oju Aro é o quilombo de resistência urbana que nos deixou de presente.

Ya, lembro-me do primeiro dia em que a vi, foi na Casa de Cultura Silvio Monteiro em Nova Iguaçu, no ano de 2007.  Como não lembrar?

Foram suas frases que me conduziram aos caminhos que trilho hoje.

 A senhora disse assim: “Sou nordestina, semianalfabeta e tenho 3 livros publicados”.

Pensei: “tenho que conhecer esta mulher, que maravilha!”

Depois a senhora disse: “Quem não conhece sua raiz não chega ao topo” e essa frase me desconstruiu, me despiu.  Aí, escrevi o texto “Gênero e ancestralidade”, que me levou a ser escritora.  Nunca vou esquecer...

Sempre que começo a escrever após sua partida, lembro desse nosso primeiro encontro.

Yá, se eu pudesse agora estar diante de ti, diria, Mãe Beata, quanto amor me doou a cada encontro.  Eu bebi nesta fonte inesgotável de saber, generosidade, afeto, amor.  Lembro-me de quando precisei pegar sua assinatura para publicar seu depoimento em uma revista, e a senhora havia chegado do hospital, e preencheu toda a autorização e ainda disse: “era só isso minha filha, que você queria?”

Yá, são essas lembranças que estão em minha memória desde que seguiu para o Orun.  Não cabe aqui a imensidão que a senhora foi e continuará sendo para mim...

Yá, esta homenagem póstuma que está recebendo é só o início de tudo o que ainda podemos e vamos fazer para mantermos viva sua memória e seus ensinamentos...

Yá, nossos encontros sempre me traziam muitos ensinamentos. Se pudesse, escreveria um livro sobre nossos encontros.  Aliás, eu posso e vou fazer, bem devagar, para não esquecer de nada, porque a vontade que tenho agora é de gritar para o mundo como foi que me recebeu nos momentos mais importantes de minha vida.

Vou relatar o primeiro dia de aula no curso de Doutorado, na UERJ.  Sob suas bênçãos, iniciamos, vai ficar na história!

Era um grande sonho meu e lá estavam, Iemanjá, Ogum, Logun Edé, Xangô, Iroko, na representatividade de seus respectivos filhos, Mãe Beata de Iemanjá, Pai Adailton Moreira, Stela Caputo, Lucio Sanfilippo, Marcos Serra, Elaine Marcelina, Cristiano e Pedro.  Tudo tem um porque, Yá, hoje sei disso, e o beijo na testa que me deu naquele dia carregarei para sempre comigo. 

Nossos laços vêm de longe... Assim como nossos passos, sei que nosso cordão umbilical ancestral seguira até a eternidade...

Yá, vou me despedir por hora com duas falas suas que marcam demais meu livro “Mulheres Incríveis”, e todas as pessoas que o leem, principalmente as mulheres...

“[...] Eu mesma me alfabetizei, eu mesma fiz todas as universidades do mundo, de todas as ONGs, eu mesma fiz com o meu caminho. Então, eu não posso ter medo e digo: se eu morrer por ser intrépida, por ser ousada, eu só quero que digam assim... a última coisa, quando botarem o último torrão de terra, digam: Estamos botando o último torrão de terra na Luther King Mulher. ” (Mãe Beata de Iemanjá, p.44, Mulheres Incríveis)

“[...] para mim, não existe nem o ontem nem o hoje. Para mim, existe o eterno e eu sou eternidade. [...]” (Mãe Beata de Iemanjá, p.50, Mulheres Incríveis)

Yá, agradeço por cada afago, cada palavra, cada carinho, cada beijo na testa, as cantigas, os abraços, os depoimentos, os encontros, os ensinamentos, tudo, mas tudo isso caminha junto comigo por onde vou.   

Impossível deixar em algum lugar guardado, que não seja a memória, a vivência de seu sorriso, de seus braços abertos, de sua benção, de seu cheiro, cheiro de mar, cheiro de Yá, cheiro de Iemanjá, cheiro de axé de mãe, gratidão, benção, e, por onde eu andar, a levarei comigo. E isso só isso é capaz de me fazer seguir, pois nossa luta é grande, e continuaremos nela!

Olhe por nós do Orun, pois aqui no Ayie, nos deixou um grande legado.  E peço forças a Exu, Iemanjá, Xangô e Iroko para conseguirmos levar a diante seus ensinamentos.

ELAINE MARCELINA

Escritora, professora, historiadora, mestre em história, roteirista, colunista e produtora do Pauta Rio. Elaine também é militante do Movimento de Mulheres Negras, do Movimento Negro Unificado e Ministro a Oficina de Escrita Criativa: Meu Primeiro Livro.

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