ELAINE MARCELINA

Memória, Cotidiano e Literatura

Anima: mulher negra, de nome forte, que enfrenta os desafios da Casa Grande dos tempos modernos

17/03/2020

Foto: Marcelo Rocha / Mídia NINJA

A felicidade de Anima durou pouco. Lutou muito para adentrar aquele espaço: mulher negra, de nome forte, nome de rainha africana, nascida na favela, pensou: “agora consegui chegar onde meu povo merece estar”. Doce ilusão de Anima. Como ser feliz na casa grande?

Foi só uma ilusão momentânea, daquelas de contos de fadas. Anima viu a sinhazinha dos tempos modernos vestida de mucama, falando como mucama...ao menos tentava. Tinha o discurso bem afiado a favor da liberdade de todos os negros, todos aqueles que tentavam “ser escravos de dentro”.

Não existe mais casa grande, eu pensei! Estou louca! Não existe mais sinhá nem sinhô!

Mas acordei e tropecei bem dentro da casa grande dos tempos modernos, a Universidade Pública. Acordei bem no meio dos truques da sinhá. A sinhá que ora se travestia de amiga, ora chicoteava, dizendo que estava ensinando as regras da Casa Grande dos tempos modernos, entendem? Eu percebi, da pior forma, que uma mulher negra pode compreender que depois de mais de 300 anos de escravidão no Brasil, e com 130 anos de abolição da escravatura, vivemos o resquício da escravidão.

Anima não entendia a submissão de todos em tempos modernos, pois os grilhões não deveriam mais existir, mas infelizmente ainda existiam.

Numa tentativa de adentrar a casa grande, que outrora nunca fora ocupada por nós, reles negros recém-alforriados, assim como Anima, enfrentaram as regras postas na mesa, mas, infelizmente, não bastavam somente as regras visíveis, havia as subjetivas, as invisíveis.

Anima pensava: Somos livres!

Mas assim como recém-alforriados, somente a 130 anos dos 500 de existência, o desmando está longe de acabar, para tristeza de Anima e de muitos que ousam lutar contra esses grilhões impostos pelos senhores e senhoras dos tempos modernos.

As Universidades Públicas atuais, um dos locais de poder da elite branca, local de formação de pensadores, filósofos, doutores, pessoas que irão, de certa forma, influenciar a sociedade e é bem neste lugar que passados 130 anos de abolição, Anima, filha de uma doméstica, foi gerada embaixo de uma marquise, e ao nascer voltou para esta marquise, com sua mãe.

Quase morreu, porém, ela era mais uma negra que fura o bloqueio e quebra o sistema, onde muitos jovens negros não ultrapassam o antigo segundo grau, hoje Ensino Médio.

Quando Anima passou na seleção para o curso de doutorado, com nível 7 da CAPES, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ, ela comentou entre seus amigos e familiares: “a filha da Dona Ivone será Doutora!” (ela sempre teve esse hábito de falar de si na terceira pessoa), hábito este da academia. E seguindo a analogia vivenciada por Anima, na Universidade, local ao qual ela intitula “A Casa Grande dos Tempos Modernos”, pois neste local se concentram os brancos que acreditam ser detentores e sabedores de tudo e que ali estão em uma missão de apoiar o negro, escrever para o negro e sobre o negro, porém, essa missão acaba quando o negro quer construir sua própria narrativa, de algo que custou aos seus antepassados, mais de três séculos de servidão e subalternidade. Desta forma, Anima não quis aceitar a migalha jogada ao chão da casa grande, pela sua tutora, orientadora, e essa insubmissão lhe custou caro.

Custou-lhe tomar uma atitude drástica a fim de dar um basta em todo o processo de racismo vivido por ela em um ano e meio. Foi expurgado em um e-mail que dizia exatamente o que a sinhá queria ouvir para soltar o chicote. Certa vez a sinhá ficou arrasada quando, em uma rede social, disseram “está branca racista sobrevive, pois tem muitos de nós dando ração para ela”. Anima, naquele momento, se compadece da dor dela, pois agora ela entende o alerta que a comunidade negra gritava em alto e bom som. O “branco” pode e deve estar na luta antirracista, ele não pode e não deve querer dizer que vive ou entende a comunidade negra melhor que o negro. Eis aí o cerne da questão em muitas histórias de racismo vivenciadas nestes espaços de poder.

Anima largou o curso e cedeu àquilo que subjetivamente foi orquestrado pela sinhá, e como Anima tinha uma filha para criar, preferiu recuar e seguir depois, até porque a ancestralidade já se encarregara da morte da sinhá em vida; é uma mulher doente pelas maldades e atrocidades que comete e tem um histórico de abusos e maus-tratos dentro da Casa Grande –Universitária.

Anima gritou: — Não sinhá! Esse preço não pago! Meus antepassados já pagaram duramente por minha liberdade. Se o lugar é seu e não meu, eu lhe entrego de volta! Toma... pega..., é seu!

Divida com quem comunga com seus mandos e desmandos, com medo e pavor do seu chicote. Dívida com quem ainda há de dar chicotadas nos seus iguais para não perder a chance de estar naquele lugar, réplica fiel da casa grande dos tempos coloniais.

Anima, finalmente, comprou sua alforria, e como a Casa Grande é de tempos modernos, ela a compra por e-mail. Sim, entreguei a alforria via e-mail. Num silêncio ensurdecedor, via internet, que foi a maneira que Anima arrumou para deixar de ser açoitada e voltar para o quilombo para, junto com seus irmãos de luta, ser cuidada e fortalecida para retornar a este espaço de poder em outro momento e, com certeza, mais fortalecida e com outro olhar sobre as sinhás e os senhores.

E com a determinação de não receber mais nenhuma chicotada, Anima recebeu o comunicado da Sinhá de seu desligamento, também por e-mail. Seguiu triste, mas curando as feridas e se fortalecendo entre os seus, pois Anima tem um sonho, assim como Luther King. Um dia a filha da Dona Ivone realizará esse sonho, pois todos os negros dos tempos da colônia estavam por sua própria conta, assim como Anima, nos tempos modernos, sendo que Anima está no quilombo, onde tem muitos por sua própria conta, sendo então mais fácil curar as feridas e se levantar e lutar contra qualquer sinhazinha doente da atualidade. Anima poderia ter comprado uma briga por direitos com a Sinhá, e ter levado chicotadas por mais dois anos e meio, concluindo sua jornada na Casa Grande e saindo com seu canudo nas mãos totalmente doente como a Sinhá e seus seguidores fiéis, aqueles de dentro.

Anima preferiu sair na contramão, assim como os negros que formaram o quilombo. Recuou para se aquilombar e pegar um canudo que faça jus e sentido à história e à memória de seus antepassados e ancestrais. Eles lutaram, morreram e resistiram para que Anima não desse nenhum passo atrás... Nenhum! Anima tinha um sonho e continuará tendo. Anima crê na justiça de Xangô, pois esse não falha. Pode-se aguardar! Anima não foi a primeira a retirar o chicote da mão dela; foi, talvez, a primeira, a entregar a ela, sem gritar, aquilo que para ela era a forma que, ainda que por baixos dos panos, encontrou para assumir sua branquitude arraigada nessa vida e em qualquer outra.

O grito de Anima ecoou na Casa Grande dos tempos modernos. Ela não se permitiu continuar sendo chicoteada pela sinhá e devolveu, nas mãos dela, o que ela tinha como forma de escravizar e chicotear anima e quem o permitisse.

Quem estava no quilombo, naquela noite de quarta-feira, dia de Xangô, o rei da justiça e o orixá que a rege, podia ouvir por todo o quilombo o que Anima gritou com lágrimas nos olhos: “Sou livre, nasci livre e luto por liberdade com os meus, com aqueles que lutam de verdade, e não só nos papéis, como os brancos, que em sua maioria vão morrer impregnados pelo racismo que os alimenta, mas por Xangô, também os corrói. Kao Kabecile, Xangô!

Por mais 130 anos lutando contra o racismo nosso de cada dia! Nenhum passo atrás! Eu tenho um sonho! Ubuntu! Ninguém solta a mão de ninguém!”

 

Ao final do discurso, com os olhos marejados e com punhos cerrados, jurou não desistir jamais e seguiu noite adentro com seus irmãos de verdade criando estratégias de luta e de retomada da liberdade verdadeira nos tempos modernos. De longe podia se ver a roda que se formou no quilombo, com Anima no meio e no alto de uma pedra clamando e lutando por justiça.

Esse conto de Elaine Marcelina integra o Cadernos Negros, volume 42, Contos afro-brasileiros.

ELAINE MARCELINA

Escritora, professora, historiadora, mestre em história, roteirista, colunista e produtora do Pauta Rio. Elaine também é militante do Movimento de Mulheres Negras, do Movimento Negro Unificado e Ministro a Oficina de Escrita Criativa: Meu Primeiro Livro.

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