Encruzilhada de Notícias

com Lia Vieira | @liavieira41

Black Colabora Blackworking – o novo normal

13/07/2020

Estimulada sempre com sua presença e participação sigo no esforço de informar, atualizar e recuperar nossa História.

O Brasil tem avançado nas últimas décadas, na construção de um modelo de desenvolvimento econômico que apesar dos índices consideráveis não consegue reduzir as disparidades sociais, econômicas, raciais.

Meu mergulho neste tema é trazer contribuições sobre a especificidade e a invisibilidade que norteia o espaço corporativo do empreendedorismo negro.

Não é raro ver-se em uma esquina das grandes cidades, um vendedor ou vendedora com sua” banca”, na força de um lugar-espaço onde se realiza a força da resistência Essa “patrimonialização“ com predominância de corpos negros, infiltra-se num jogo sutil das movimentações das organizações populares de compra e venda institui o território público como acesso a sobrevivência: ruas, praças, transportes.

Os estudos apontam que mesmo nas situações de mudança social a persistência das desigualdades e do racismo permeiam projetos e trajetórias de ascensão social.

“Eles me usam meio como referência (...) Todo mundo me conhece como o farmacêutico do laboratório de análises clínicas. A pouca renda da família foi alocada para o estudo, eu e meus irmãos tivemos isso. Me sinto como um exemplo. Como se tivesse puxando toda uma geração.               

(Ivo Martins – empresário de rede de Laboratórios de Análises Clínicas-SG).

No empreendedorismo, questões de raça e gênero, vão sendo vencidos pelo conjunto de competências, qualificações, estudos e desenvolvimento de atitudes empreendedoras da população negra.

 

A mudança inclui agora revisitar estéticas, percursos de memórias quilombolas e incluí-las na formação de imagens e ações nas cadeias produtivas.

Atualmente dos 207,8 milhões que residem no Brasil, 46,5% se declararam pardos, 9,3% pretos e 43,1% brancos. Embora o contingente populacional seja significativo, o acumulo histórico de renda e desigualdade de oportunidades resultou em um abismo econômico e sociorracial entre negros e indígenas e os demais.

Outra pesquisa recente, nos trouxe boas notícias onde os pequenos negócios são gerenciados por mulheres que impactam diretamente na renda.

Tomada como uma questão histórica a ser desvelada, o sociólogo Jorge Aparecido Monteiro, realizou estudos e pesquisas que vão de 1987 a 2002, e são dele os registros das ações coletivas e associativismo afro empreendedor mais recente.

Centro de Assessoramento e Coordenação Empresarial (CACE), Centro de Estudos e Assessoramento a Empresários Afro-brasileiros (CEM),Círculo Olympio Marques (COLYMAR), Coletivo de Empresários e Empreendedores Afro-brasileiros (CEABRA), Associação Nacional dos Coletivos de Empresários e Empreendedores Afro-brasileiros ( ANCEABRA).

O CEERT - Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades ,fundada em 1992,tem mitigado trabalho, educação e justiça ‎ com projetos, editais e pesquisas que procuram garantir os direitos da população negra apoiando a luta pelo fim das desigualdades étnico-raciais e de gênero.

Evidencio o protagonismo do CADON, 1998, que surge para promover o desenvolvimento da cultura empresarial e que tendo a frente Osvaldo Neves, já falecido, e a incansável Ruth Pinheiro, passaram a incentivar; planejamento, consultoria, plano de negócios numa perspectiva de qualificação empresarial.

Em 2002, Adriana Barbosa, inaugura, a Feira Preta, um evento, para empreendedores negros mostrarem a sua criatividade e inventividade nas áreas de moda, música, gastronomia, audiovisual, design, tecnologia e muitas outras. Em seus 18 anos de crescente inovação,no modelo de negócio e na relação de venda e consumo, reverteu estereótipos como atestam os 130 mil visitantes do empreendimento exitoso.

A Incubadora Afro brasileira foi criada em 2004, com base na experiência desenvolvida pelo Centro de Estudos e Assessoria Empresarial (CEM / IPDH) estes de  1991). O livro de Judson Nascimento, 2016, foi elaborado com base na experiência da Incubadora Afro Brasileira e obteve reconhecimento acadêmico como tese de doutorado no programa de pós graduação da COPPE/UFRJ e por parte da Université Du Littoral Côte d'Opale.

Com a falta de democratização no crédito, o Fundo Baobá, é criado em 2011,como forma de enfrentamento na captação de recursos e investimento no fortalecimento de pessoas e organizações negras, focadas na equidade racial e de gênero, reorganizou assim estratégias no mundo contemporâneo.

Os tempos modernos e mais recentemente a pandemia nos lançou a novos desafios. Um estudo realizado pela Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) mostrou que os brasileiros aumentaram suas compras online, passaram a usar meios digitais de pagamentos e devem continuar com esses hábitos de compra e consumo no pós-pandemia. Segundo os dados, 61% dos clientes que compraram online durante a quarentena aumentaram o volume de compras devido ao isolamento social.

Um futuro promissor está na dianteira de mudanças positivas com a participação de um grupo jovem que aumentando a escolaridade aumentou também o ambiente da Gestão, valorizou as competências.

Colabora Afro empreendedores, é um destes Grupos, intitula-se, em sua descrição: “Grupo de colaboração mútua entre afro empreendedores, para juntos construirmos alternativas em todos os aspectos, que nos ajudem a passar pelos desafios trazidos com a crise do Coronavírus.”

Este Grupo que hoje agrega 200 participantes, é formado exclusivamente, por empreendedores, seus negócios e seus contatos. O protagonismo de Katiuscha Watuse, expert no ramo de Consultoria, teve a brilhante ideia, buscou  práticas e soluções, formação e informação  inclusive no acesso ao crédito, troca de experiências, aulas de ginástica e técnicas de meditação, saúde-mente com diversas psicólogas, necessárias nesta época de "mudanças profunda". Cerimoniais, buffets, maternidade, clubinho preto, moda, acessórios, mentoria financeira, cursos office, educação antirracista, riqueza, renda e  o que mais couber em um suporte empresarial.

Coletivos periféricos estão vindo para o centro, ocupado anteriormente, por pessoas, dotadas de privilégios, a nova proposta de atuação política vai acumulando reservas para dar o salto na proficiência tecnológica e reorganiza as estratégias de uma outra cidadania.

O desafio é romper a margem e integrar-se à ordem econômica competitiva numa ousadia que deixa para trás a exclusão consentida e passar a proclamar as reversões de um capitalismo perverso, desumano e excludente.

E este momento de transformação mostra como podemos sempre (re)adequar nossas rotinas para algo que faça mais sentido com o que estamos vivendo. Não há dúvidas: estamos caminhando para um novo mundo marcado por engajamento, conectividade, ativismo e, acima de tudo, valorização da transparência como premissa para construir relações

O que move este tempo de análises: Acreditar em si mesmo não é opcional.

Avançar revendo seus conceitos é o novo normal, porque o “normal” era parte do problema..

Jorge Aparecido Monteiro O empresário negro OR Editora Rio 2001

Desenvolvimento e Empreendedorismo Afro brasileiro Editora Atilende Florianópolis 2013

Lia Vieira Gestão em Empreendimentos Turísticos MBA UFF 2016

@blackworkingoficial

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LIA VIEIRA

Carioca e graduada em Economia, Turismo e Letras, Lia cursou doutorado em Educação na Universidade de La Habana (Cuba)/Universidade Estácio de Sá (RJ). É escritora, pesquisadora, dirigente da Associação de Pesquisa da Cultura Afro-brasileira e militante do Movimento Negro e do Movimento de Mulheres

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