JEANEY

CALABRIA

Religião em Pauta

A medida da

Justiça

24/06/2020

Um menino aponta para o céu:

- Pai, lá vem trovoada!

Os dois, pai e filho, sentam num degrau de cimento que dá acesso à casa simples, paredes descascadas, lâmpadas penduradas no teto por fios. O homem suspira profundamente. A mesa está vazia do pão e a alma repleta de fome: fome de justiça, fome de oportunidades, fome de esperança.

O menino se aconchega e sente o coração do pai bater em descompasso. Pressente o presente tão cheio de problemas. Outra trovoada é ouvida e o rapazinho sorri.

- Se preocupa não, paizinho. Meu pai lá do Orum toma conta e presta conta!

O homem duvida internamente. Sabe que a fé do filho escapa um pouco da realidade. Surpreso, vê um preto carregando uma balança em uma das mãos e um saco na outra. Levanta-se preocupado.

- Quem é o senhor? – Pergunta temeroso.

- Doze Ministros fizeram as contas. O pequenino aí tem crédito de sobrea conquistado com a fé. Enquanto o senhor descansa o corpo do dia pesado, ele corre para o quintal, conversa com as energias que estão acima dele e fazem morada nas estrelas. O menino sempre sorri agradecido nesses momentos.

Outra trovoada é ouvida. O estrondo parece rasgar o céu e o moço preto some em meio a um rodamoinho de poeira.

O menino corre e apanha o saco de juta deixado no terreno de areia e pedras.

- Veja, Pai! Tem comida de sobra aqui! Foi meu pai do céu! Foi meu pai do Orum! Foi meu Rei Xangô!

Oração a Xangô

Grande Rei,

Precisamos ser infância novamente diante de tua fogueira!

Permita-nos sonhar com um céu de bandeirinhas coloridas...

Desvie de nossos caminhos os olhos dos que abrigam as serpentes na alma.

Faça-nos crianças desde ontem

E abafe o som do verbo cruel com o barulho dos estalinhos...

Nas pedreiras, teu relógio sempre marca meio dia para que haja Tempo!

Sabemos que estás conosco na duração do sempre

E que todas as mentiras-crenças são incineradas pelo Fogo Sagrado.

Quando nossos corações são oprimidos, é teu amparo que nos sustenta.

Quando a injustiça adentra nossas casas e senta-se à mesa da ceia,

Tua força a expulsa!

Arrancas a pele de cordeiro de todos os lobos: um a um...

Se mantemos os pés no caminho, é porque nos convenceste da vitória.

Sê por todos nós, Pai Amado!

Sê por todos nós!

Chama Ojuobá para enxergar nossa luta!

Chama todos os outros Obás para ouvirem nossos lamentos...

Nosso choro...

Nosso ranger de dentes!

Seja o brilho de vida em nossos olhos!

Avive as brasas de nossos espíritos!

Traga-nos de volta a infância diante de tua Fogueira Encantada,

Pai Xangô!

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JEANEY CALABRIA

Jeaney é Professora de Língua Portuguesa e Literatura, Jornalista e autora dos romances Capa de Veludo (ditado por Exu Veludo) e Uma nova chance (intuído por Pai Benedito de Angola). Coautora do livro Candomblé em Família, Biografia do Babalorixá Jorge Jauanilê Caribé. Umbandista e pesquisadora das religiões de matriz africana.

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