JEANEY

CALABRIA

Religião em Pauta

Era uma vez

[histórias para avó contar e neto ouvir]

24/07/2020

Eu estava ciente. Fazia bem pouco tempo que descobrira sobre minha adoção. Uma mistura estranha de sentimentos: medo, felicidade, tristeza, rejeição, aceitação. Tudo andava meio liquidificado em mim. Resolvi pegar a estrada que me afastaria da casa de praia. Minha mãe do coração, a mulher que havia me encontrado num cesto de palha, na tênue linha que separava a espuma d’água da areia, acenou da porta.

- Vá, filho! Vá buscar o que te pertence!

Da janela do carro, vidro aberto, avisei.

- Não vou demorar, mãe. Volto logo.

- Vá sem pressa. Toda história precisa ser bem contada. Sabes por mim que eu o encontrei e, com muito amor, criei você. Busque o outro lado da moeda. Enquanto te espero, vou me banhar no mar e buscar minha essência também.

Na estrada que margeava a mata, avistei um pontinho branco cercado por um pântano. Parei o carro e caminhei entre as folhas e árvores. O chão era encharcado e de barro. Meus tênis ficaram manchados. Parei um pouco para descansar. A luz do sol passava por entre a copa de uma jaqueira, iluminando a penumbra que me cercava. Arregacei as mangas da camisa e, pela primeira vez, contemplei a mim mesmo. Sorri sem mágoas das cicatrizes que salpicavam meu corpo. Eram muitas. Internas e externas. Cada uma delas havia me custado alguns sentimentos doídos durante o tempo da escola.

Minha mãe de criação chamava-se Janaína. Era protetora, destemida. Bastava uma lágrima silenciosa escorrer pelo meu rosto que lá ia ela, feito arrebentação, inundar a direção e as outras mães com palavras laminadas:

“- Marca pior é a que vocês carregam na língua venenosa e na alma preconceituosa! Essas marcas ninguém tira, remédio nenhum cura!”

Continuei meu caminho com um sorriso no rosto. Sorriso feito de sol, mar e boas lembranças. Vi que o pontinho branco era uma casa humilde, caiada, com telhado de sapê. Ladeei cautelosamente o pântano à frente da casa. Tomei coragem e bati à porta. Uma voz quase sumida fez meu coração saltar.

- Entre, meu filho! A casa é sua...

Entrei. Uma senhora se balançava em uma cadeira de palha. Usava um vestido lilás, dois colares de búzios atravessados sobre o peito.

- Sente-se. – Disse, apontando para uma esteira de palha.

Acomodei-me e ela perguntou:

- Você sabe ouvir com o coração?

Gaguejei.

- Acho que sim...Minha mãe Janaína tentou me ensinar.

- Era uma vez uma mulher muito rígida, cheia de medos, perseguida pela simples condição de ser mulher e ser, como se diz, mais velha, mais madura. Sua riqueza era diferente da exigida pela sociedade para criar um filho. Para ela, o anoitecer da vida já havia chegado. Esteve uma só vez com um homem e este homem só podia usar branco. Engravidou e o povoado onde ela morava foi assolado por grande peste. O menino nasceu e, contaminado pela varíola, desenvolveu grandes feridas na pele. Ela sabia que não seria capaz de curá-lo. Teceu um cesto de palha e deixou o bebê neste cesto à beira da praia. Guardou apenas o amor que sentia por ele e passaria a sentir por todas as crianças. Solitária, diante de um pântano, inventou tantas histórias com finais felizes, aprendeu bordados, assou bolos, avivou a memória dos erros para poder esquecê-los aprendendo a se perdoar...Será que você me entende?

De cabeça baixa, eu chorei como as crianças choram. De joelhos, busquei me aproximar dela e ela, generosa e amorosamente, ofertou-me seu colo. Acariciando meus cabelos, perguntou:

- Essa história tem um final feliz?

Sequei minhas lágrimas para responder:

- Sim... Vó é mãe com açúcar como dizem por aí. Sua benção, minha mãe primeira. Sua benção, Mãe de todas as mães e de todos os filhos desse mundo de Olorum.

As mãos enrugadas e trêmulas apontaram a porta.

- Vá, Filho da Luz! Segue teu caminho! O coração de Janaína te espera junto ao mar, onde, no passado te abandonei. Podes deixar um pouco de teu amor comigo?

- Qual é seu nome? – Perguntei.

- Nanã. Este é meu nome.

- Mãe Nanã, tens e terá sempre todo o meu amor. Saluba!

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JEANEY CALABRIA

Jeaney é Professora de Língua Portuguesa e Literatura, Jornalista e autora dos romances Capa de Veludo (ditado por Exu Veludo) e Uma nova chance (intuído por Pai Benedito de Angola). Coautora do livro Candomblé em Família, Biografia do Babalorixá Jorge Jauanilê Caribé. Umbandista e pesquisadora das religiões de matriz africana.

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