JEANEY CALABRIA

@jeaney.calabria

Religião em Pauta

Arco-íris

27/09/2020

Reprodução

Centro da cidade. Qualquer cidade. Dessas feitas de cimento, desamor, vidro fumê nas fachadas, desordem, injustiça e dor.

Tormenta. Fim de expediente. Nuvens escuras escondem o céu. Esbarram-se birrentas e mal-humoradas. Brigam para açoitar a tarde. Estrondo no encontro das nuvens. Um garotinho engraxate olha para o alto. Tenta em vão encontrar carneiros ou pintinhos que a avó insistia em dizer que essas nuvens formavam. Nada vê na sua infância perdida.

Estrondo. Ruído. Ruína e raios.

Oyá venta. Xangô brada e cospe o Fogo Sagrado.

Tormenta. Tormento: abrigos sob marquises, guarda-chuvas voando, ruas encharcadas. Um repórter de capa transparente anuncia o caos. Desabamento, lama, desespero e choro.

Foi embora o carro novo, prestações pendentes. Foi embora a byke do entregador de pizza e fome a ser saciada em dois segundos de colesterol e pressa. Foi embora o cobertor de papelão e miséria de quem espera a fome passar e nunca passa.

Sem mortos: suspiro de alívio. Cem mortos, sem esperança pra mais de cem mil. Vida que segue. Tem que seguir. A boca dos caça-moedas é voraz. O mundo só brincou de parar e cuidar.

Tormenta na alma. A Terra agoniza pela ganância... Sem ar. Atmosfera pesada. Psicosfera cansada. Meninos afoitos sobrevivem na memória da última idade. Os olhos míopes veem o estrago e suspiram saudades. Afoitos, deixam a alma saltitar nas poças.

Um moço de terno e gravata apanha na pasta de couro a nota fiscal do carro que foi embora na enxurrada. Dobra, dobra e dobra o frágil papel da posse. Pensa meio amargo que ninguém possui nada de verdade. Marca com a unha roída o papel e faz um barquinho, lembrando-se do pequenino-menino-do-passado.

Fecha o guarda-chuva preto. Ouve um Bem-te-vi gritar, avisando-o que bem via a quem se deixava ser gente de verdade. Chama o garotinho engraxate. Gesticula para o vendedor de balas. Aponta para a mulher que cata latinhas, para o Artista esquecido que toca violino, para um outro que trabalha como estátua prateada de imobilidade olímpica. Ajeita a máscara e fica de cócoras no meio fio. Limpa os óculos embaçados e observa encantado o córrego formado entra a calçada e a rua. Põe o barquinho de papel-fiscal-posse no rio imaginário formado na pequenez imensidão daquele urbano rio.

O garotinho engraxate sorri. Aponta para um rasgo de céu entre os edifícios:

- Olha lá, moço! Um Arco-Íris! Que lindo! Que lindo! Que lindo!

A mulher larga o saco com as latinhas. O Artista-Estátua começa a se mover. Os dois dançam ao som do violino. As buzinas impacientes não percebem a beleza do solo musical. O vendedor de balas reencontra a doçura perdida.

O homem engravatado lembra de suas origens e do Pote de Ouro. Sussurra uma pergunta:

- Estará lá a cura?

O coração dispara. Ele pensa ouvir os aguidavís mágicos tocando ágeis o couro dos atabaques. Ajeita a pulseira de búzios escondida sob a manga da camisa. Arruma os brajás entrelaçados no peito sob a carcaça do terno.

Há esperança. Todo temporal passa...

Cores no céu. Múltiplas. Arco de cores. Íris de infinitas possibilidades.

A Grande Serpente envolve o Planeta. Oxumarê despertou!

Há esperança! Haverá Tempo! No Pote de Ouro no final do arco-íris, está a cura!

O barquinho segue no curso d’água. O sino da igreja badala para anunciar o início da noite. Ayê em oração... “Ave Maria, cheia de Graça...Benditas são todas as mulheres...Bendito são todos os povos...Amem-se!”

Pote de Ouro. Ouro da vida!

Dan!

Arroboboy!

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JEANEY CALABRIA

Jeaney é Professora de Língua Portuguesa e Literatura, Jornalista e autora dos romances Capa de Veludo (ditado por Exu Veludo) e Uma nova chance (intuído por Pai Benedito de Angola). Coautora do livro Candomblé em Família, Biografia do Babalorixá Jorge Jauanilê Caribé. Umbandista e pesquisadora das religiões de matriz africana.

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