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'Cabocla Jurema' evidencia a experiência da mediunidade com os guias espirituais

Atualizado: Fev 24

Por Jeaney Calabria ||

Victor Crisostomo Gomez

Nasci branquinha, cabelos cor de mel. Família católica. Íamos à Missa todos os domingos, recebíamos a hóstia e, ao final, abraçávamos a todos na Paz de Cristo. Retornávamos à casa realmente em paz. Minha mãe corria para preparar o almoço e meu pai começava a fazer os reparos da casa. Eu corria para desenhar. O desenho era o meu passatempo preferido. Ficava em meu quarto em meio aos lápis, guaches e pincéis. Depois, descia orgulhosa com minhas obras e sentava à mesa aguardando os elogios durante a refeição. Minha mãe sempre era a primeira a falar: - Nossa! Você desenha e pinta muito bem! É uma artista! Depois era a vez de meu pai. Um pouco mais crítico, ele analisava a mistura de cores. - Muito bom, minha filha. Só acho que você usa cores muito escuras para os bonecos. - Eles são dessa cor mesmo, papai. - Melhor usar cores mais claras. Cor de pele, por exemplo... Eu guardava os desenhos e não reclamava. Os bonecos eram meus. Eu decidia sempre qual a cor da pele de cada um. Quando escurecia, começava meu tormento. Hora de dormir pra mim era a hora da agonia. Minha mãe apagava a luz sempre com a mesma frase: - Reze, minha filha, para dormir com Deus e sonhar com os anjos. Isso me apavorava. Eu começava a repetir as orações que havia aprendido mecanicamente e aí... [voz de choro] ... os vultos começavam a aparecer...Eu me encolhia, cobria a cabeça e ficava quietinha até pegar no sono. Um dia, em sala de aula, vi um homem entrar atrás de minha professora. Era preto, cabelo crespo branco e bem rentinho à cabeça. Estava de calça branca dobrada à altura dos joelhos e camisa branca. Ela começou a fazer a chamada e ele ficou em pé ao lado dela, perto do quadro. Eu já estava muito curiosa e não aguentei. Levantei o dedo e pedi licença. - Tia, posso falar com a senhora? Ela só me respondeu quando chamou o nome do último aluno. - Pode vir agora, Camila! O senhorzinho acenou para mim e sorriu. Retribuí o cumprimento e ouvi as risadas de meus colegas. A tia tinha pressa para começar a aula. - Fale, Camila. O que você quer? Não fez o dever de casa? É isso? Cheguei bem pertinho dela e sussurrei a pergunta: - Quem é ele? - Ele quem? - Ué, tia! Esse moço ali ó! – Respondi apontando para o lado direito dela. Ela me olhou bem confusa. - Quem? Voltei a sussurrar.

- Esse senhor, tia! - Não tem nenhum senhor aqui ou ali e nem em lugar nenhum dessa sala, Camila! Tá ficando doida, menina? O homem colocou o indicador no lábio me pedindo para ficar em silêncio. Fiquei. Antes eram só vultos. A partir daquele dia, comecei a enxergar pessoas. Minha vida passou a ser povoada de gente que ninguém enxergava: crianças da minha idade na época, vovôs e vovós bem pretinhos, índios e índias. Eles me ensinavam coisas, conversavam comigo... Eu tentava contar para minha mãe sobre isso, mas ela desconversava. Um dia, ouvi meu pai falando alto. - Já disse que não vou aceitar que você leve nossa filha a centro espírita nenhum! Colei o ouvido na porta de meu quarto. Minha mãe chorava. - Não foi você que passou vergonha na escola! A professora insinuou que nossa filha está louca... - Leve ao médico então! Camila tem mesmo um jeito estranho! - Mas nossa vizinha... Meu pai a interrompeu bruscamente: - Ela é macumbeira! É isso que você quer? Mexer com essas coisas diabólicas? Não, não e não! [Lamento/Tristeza] Naquela noite, pedi muito a Deus para não estar louca. Adormeci e tive um sonho que determinou a minha vida. Sonhei que estava em um jardim muito bem cuidado, rodeada por flores, pássaros e borboletas coloridas. Uma brisa suave tocava meu rosto e o céu... O céu era tão azul... Ouvi um assobio e olhei para trás. Uma jovem de pele dourada com um cocar de penas vermelhas, brancas e azuis com um arco em uma das mãos e flechas na outra me chamou: - Menina, você não é louca. A loucura é uma coisa muito triste. É uma condição do espírito que se desorganiza diante da dor. Comecei a chorar, mas não senti medo. Tive a sensação de que já a conhecia. - E o que eu sou então? Papai diz que estou louca...A tia também... - Você tem os seus sentidos bem aflorados. Enxerga além dos olhos, ouve além dos ouvidos. - Isso é muito ruim. Rezo e nada disso passa. - Você precisa procurar a sua vizinha. - A que papai diz que é macumbeira e que mexe com o diabo? - Essa mesma. Ela é uma boa pessoa. Vá com sua mãe. - Qual é o seu nome? - Meu nome é Jurema. Ela desapareceu e eu deitei na grama. Acho que adormeci dentro do meu sonho. Quando despertei, estava mudada e decidida. Chamei minha mãe e anunciei. - Quero ir na casa de dona Antônia. Mamãe balançou a cabeça.

- Deixe seu pai sair. Vá tomar seu banho e me espere arrumada. Hoje, você não irá à escola. Mamãe tocou a campainha. Dona Antônia abriu a porta surpresa. - Posso ajudar vocês? Eu respondi. - Pode sim, dona Antônia. Ela afagou minha cabeça com carinho. Entramos na casa toda pintada de branco e azul. Senti meu coração saltar pela boca. Gente vestida de branco, panos amarrados na cabeça, muitos negros, poucas pessoas brancas. Achei aquilo tão bonito! Dona Antônia nos mandou sentar. - E por que você tem tanta certeza de que eu posso ajudar? - Jurema me mandou vir aqui. Ela riu. - E me diga quem é essa Jurema? - Uma índia. [...] Passei minha adolescência naquela casa simples de Umbanda. Meu pai saiu de casa e minha mãe encontrou ali também uma nova vida. Desenvolvi e lapidei minha mediunidade de forma plena. Os atabaques me traziam alegria e, logo depois, o torpor causado pela chegada das entidades. Aprendi valores éticos e morais que norteiam minha vida até hoje. O nome daquele velhinho que acompanhou minha professora é Joaquim de Angola. Meu Preto-Velho. O nome de quem me guia na seara da caridade? Jurema. Cabocla Jurema da Praia. Sou feliz! Sou umbandista! Quase cedi à loucura. Escolhi trilhar os caminhos da mediunidade.

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